top of page

Versus, por Ana Carla Soler - 2023

“Every artist returns to things. The drawings that you make as a child or as an adolescent and the ideas that you have as a young artist, no doubt they crop up again and again” Elaine de Kooning

 

A instalação que empresta o título para essa exposição, “Versus”, apresenta armas com as pontas de seus canos estouradas, organizadas em pares, posicionadas uma de frente para a outra. A explosão que culmina nos cilindros esgarçados provoca impacto mútuo. Causa X consequência, realidade X imaginação, infância X maturidade, desenhos X imagens, jogos X guerras.

Essa exposição não busca tratar de opostos ou contraposições, coloca-se como o espaço entre o embate. Nesse lugar de encontros e de infinitas possibilidades, surgem encruzilhadas entre as experiências de quem conta e de quem interpreta os versos visuais apresentados em esculturas, tapeçarias e impressões lenticulares. O espaço suspenso que o artista chama de “zona neutra” une, no Centro Maria Antonia, obras de diversas linguagens e séries revisitadas da carreira de Ramos. Ele cria narrativas a partir de pontos observados, investigados e materializados pelas suas próprias mãos. 

A redução de traços e detalhes de aviões, explosões, submarinos, tanques cria cenas congeladas, paralisa o lugar entre as guerras de brincadeira e as verdades que vivenciamos no mundo. No espaço onde tudo pode acontecer, inclusive absolutamente nada, o lúdico encara a realidade sem possibilidade de juízo de valor. É como é, ou mais, é como poderia ser. Ali as narrativas formam um coro. A partir de pontos, um verso.

O artista conta histórias unindo partes - pixels, átomos, linhas -, para isso, usa um vocabulário que podemos ler, as imagens. Laerte Ramos escreve frases com figuras. Encontra nas referências de sua infância as formas acessíveis para gerar debates sobre questões político-sociais contemporâneas. Propõe para temas complexos iconografias simplificadas, que despertam conexão com às referências do expectador. É importante o lugar de troca com quem lê seus poemas.

Quando um motivo lhe toma a mente, busca, quase como um desafio, trazer novas linguagens para a história que vai contar ou recontar de outro ponto de vista. É assim que desenvolve um tear nas medidas exatas para produzir suas tapeçarias ou costura manualmente a peça Nós do Caos - Tapeçaria. Em outra obra da mesma série, Nós do Caos - Miçangas, cada uma das contas é posicionada geometricamente para criar formas de motivos bélicos, um tabuleiro emoldurado pelas bordas que referenciam tapetes persas. 

Elaine de Kooning sugere que um artista sempre retorna às coisas, elas voltam a aparecer vez e vez de novo. Em “Versus”, Laerte cria um ambiente habitável próprio que nos coloca de frente com histórias que não separam passado, presente e futuro, pois voltam a acontecer. São vestígios do passado no presente para serem lidos no futuro.

Ana Carla Soler

junho de 2023

bottom of page