LAERTE RAMOS

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Campos Eliseos - São Paulo/SP - Brasil

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Ao longo da história, as formas tradicionais de arte tais como as cerâmicas e as práticas têxteis caíram na categoria decorativa e foram então negligenciadas e desconsideradas como “altas” ou belas artes. Infelizmente, elas foram raramente - se é que foram- consideradas dignas de equivalência artísica a grandes suportes como a pintura e a escultura. 

 

Felizmente, a cerâmica, percebida apenas como um ofício até muito recentemente, tem lentamente sido integrada à prática escultural nas últimas décadas. Um seleto grupo de artistas, como Greyson Perry, que ganhou o prêmio Turner em 2003, ou Ron Nagle, cujo trabalho foi exibido na 55ª Bienal de Veneza, a tem defendido como um suporte para a escultura e reexaminado essa forma de arte que, por tanto tempo, foi esquecida nas sombras. 

 

Em um país como o Brasil, com uma cena artística tão fértil, ainda há muito poucos artistas que optam pelo uso dessa matéria escultórica. O paulista Laerte Ramos é um dos poucos devotados a trabalhar com argila. Na última década, ele tem produzido algumas das mais interessantes e envolventes obras de cerâmica no país. Apesar de Ramos ter iniciado sua carreira favorecendo suportes bidimensionais, ele adotou o uso do molde em argila, dando volume às imagens que haviam sido exploradas em gravuras, sempre mantendo o tom lúdico e provocador que caracteriza seus trabalhos. 

 

Laerte Ramos ficou conhecido por produzir obras de arte que trabalham noções de design, industrialização, materialidade e função. Lastlandia e Arma Branca foram algumas das primeiras e mais impressionantes instalações de Ramos, onde ele se dedicou à análise de sistemas militares e armamentícios. Talvez o trabalho mais famoso e criticamente aclamado do artista seja a instalação Casamata, de 2014, apresentada na Pinacoteca de São Paulo e, um ano depois, no Pavilhão Brasileiro da Expo Milano, onde ele suspendeu do chão, à altura dos olhos do observador, centenas de pequenas casas ou casamatas para pássaros - claramente uma ponderação sobre

moradia, o ambiente construído, e, em parte, também uma menção à guerra.

 

Esta exposição na Blau Projects apresenta uma nova série intitulada Forma de Reúso, onde o artista retorna às suas explorações urbanas, inventando novas estruturas arquitetônicas e investigando as configurações e cenários que nos cercam. Esse trabalho é o resultado de uma investigação que Ramos começou em 1999, na qual ele tem estudado os espaços cotidianos e refletido sobre a serialização e a produção em massa. Ramos mais uma vez se debruça minuciosamente sobre os moldes para criar um universo que reflete as tipologias da arquitetura industrial; há uma clara referência a Wassertürme (Caixas d’Água), a série fotográfica de Bernd e Hilla Becher - assim como a dupla alemã, Ramos está produzindo uma arqueologia, ou documentação topológica, dessas unidades que habitam as nossas paisagens urbanas. 

 

Além disso, a mostra traz também trabalhos mais recentes de Ramos, onde ele se afasta do rigor e se volta para formas mais orgânicas e fluidas. Várias dessas peças foram ou produzidas pelo artista durante uma residência artística em Jingdezhen, na China (graças ao prêmio Rumos, do Itaú Cultural), ou produzidas com as novas técnicas que ele aprendeu e desenvolveu na Ásia. Algumas gravuras que exploram figuras mais domésticas e botânicas também estão expostas, essas são bastante minimalistas e apresentam uma clara influência oriental - o uso dessa iconografia não é surpreendente, uma vez que o artista iniciou a produção da série em 2005, quando morava na Liberdade (o bairro japonês de São Paulo).

Laerte Ramos é um artista em evolução contínua. Como os temas que ele examina e desenvolve durante os anos, ele também gosta de reciclar ou reusar a argila de projetos anteriores, de forma que seu trabalho também pode ser lido como uma metamorfose constante. 

 

Há sempre um tom vivo e acessível em sua obra, já que este artista é muito investido na criação de trabalhos democráticos e com uma abordagem pedagógica. É por isso que ele produz desde 2009 uma série de publicações chamada Almanaque # para acompanhar e complementar suas exposições e projetos especiais. Esses encantadores encartes oferecem atividades e jogos que permitem ao leitor refletir sobre assuntos como urbanismo, armamentos ou história. Ramos está trabalhando em uma nova edição que vai acompanhar Forma de Reúso; por sua vez, ele continua explorando as potencialidades da reprodução da imagem e desafiando as noções da cerâmica.

ENGLISH

Throughout the history, traditional forms of art like ceramics and textiles have fallen into the decorative category and have therefore been neglected and not considered “high” or fine arts. Sadly, they have rarely -if ever- been considered worthy artistic equivalent to the grand mediums of paintings and sculpture.

Fortunately, ceramics, perceived only as a craft until very recently, has been slowly oozing into the sculptural practice during the last decades. A select group of artists, like Greyson Perry who won the Turner prize in 2003 or Ron Nagle whose work was featured in the 55th Venice Biennale, have been championing it as a sculptural medium and reexamining this art form that was weltered in the shadows for so long.

 

A country like Brazil with such a fertile artistic scene, has nonetheless very few artists working with this sculpting medium. The São Paulo native Laerte Ramos is one of the few artists devoted with working with clay, over the last decade he has been producing some of the most interesting and engaging ceramic artworks in Brazil. Although Ramos started his artistic career favoring two-dimensional mediums, he transitioned to molding with clay the images he had been exploring in print, always maintaining the playful and thought-provoking tone that characterize his works.

 

Laerte Ramos has become known for producing artworks that deal with notions of design, industrialization, materiality and function. Lastlandia and Arma Branca were some of Ramos’ early impressive installations were he delved into analysing systems of militarism and armaments. Perhaps the artist’s most famous and critically acclaimed work is the 2014 installation Casamata presented at the Pinacoteca de São Paulo and a year later at the Brazilian Pavilion of Expo Milano, where he suspended from the ceiling hundreds of small dwellings or bunkers for birds - this of course a clear pondering about housing, the built environment and also refers in part to warfare as well.

 

This exhibition at Blau Projects features a new installation Forma de Reúso, where the artist returns to his urban explorations; he is inventing new architectural structures and investigating the settings and sceneries that surround us. This work is the result of an investigation that Ramos begun in 1999, in which he has been studying the spaces that surround us, and contemplating about serialization and mass production. Ramos has once again delved into attentive molding to create a universe that reflects on the typologies of industrial architecture; there is a clear reference to Wassertürme (Water Towers) the photographic series by Bernd and Hilla Becher - like the German duo Ramos is producing a topological documentation or archeology of these units that dwell in our city landscapes.

 

Also on view Ramos’ most recent works, where he steers away of more strict molding and moves into more organic and flowing forms. Many of these pieces were either produced by the artist while doing an artist residency in Jingdezhen, China (thanks to being awarded a Rumos Itaú Cultural Grant) or were produced with the new techniques he learned and developed in Asia. Exhibited as well are some prints that explore more domestic and botanical figures, these are quite minimalistic and present a clear oriental influence - the use of this iconography is not surprising since the artist begun producing this series in 2005 when he lived in Liberdade (the Japanese district of São Paulo).

Laerte Ramos is an artist in continual evolution, like the themes he examines and develops during years he also likes to recycle or reuse the clay he used in previous projects, so his work can be read as constant metamorphoses.

There is always an accessible and lively tone is present in his oeuvre; since the artist is very keen on creating works that are democratic and that have a pedagogical approach. This is why he has produced since 2009 a series of publications called Almanaque # to accompany and supplement his exhibitions and special projects. These delightful booklets offer activities and games that allow the reader to reflect on issues such as urbanism, weaponry or history. Ramos is working on the new issue that will accompany Forma de Reúso; meanwhile he continues to explore the potentialities of image reproduction and to challenge notions of ceramics.

Forma de reúso, por Isabela Villanueva - 2016