LAERTE RAMOS

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Percursos da Nova Arte - l, por Guilherme Bueno - 2008

Em sua exposição na Galeria Laura Marsiaj, Laerte Ramos, um dos destaques da cena brasileira recente, apresentou em agosto trabalhos em cerâmica (dois conjuntos de paisagens alpinas, um grupo de esculturas de embarcações de guerra em pequena escala, “gaivotas de papel” e  “homens-hospitais”), gravuras, e uma performance – Do pó ao pó. As esculturas das paisagens ocupavam um canto da sala e uma parede. No chão, cones de ponta arredondada, permeados de barracas, lembram os desenhos simplificados de crianças ou a imagética da cultura de massas. O conjunto da parede, pontos de apoio de escaladas. Neles, a técnica da cerâmica é uma afirmação do trabalho como equilíbrio entre rigor e escrúpulo, justa medida entre a mão e o olho, interseção entre presença eminentemente visual e desejo de proximidade (desperto pela escala próxima a dos objetos cotidianos, ou ainda a possibilidade de escalar as montanhas na parede...). O mesmo vale para as gaivotas de falso papel falsamente amassadas, ficção de uma fragilidade congelada. Ao transpor uma iconografia pictórica para uma espacialidade escultórica e instalativa – são esculturas de desenhos de montanhas; as peças na parede, por sua vez, retornam ao “lugar de origem”, antes ocupado pela pintura – aciona-se um intercâmbio entre linguagens, também presente no diálogo entre gravuras e esculturas, seja pelos temas, pela lógica visual (a ocupação em série, formando uma paisagem de múltiplos) ou processual (sua escolha pela gravura por razões análogas àquelas da cerâmica), ou seja, o exame de uma situação sob diversas variáveis, que reiteram as trocas acima mencionadas. As “enfermarias ambulantes”, bonecos vestindo uma tenda em forma de barraca de campanha, e os navios exploram a especulação do olhar, tanto por tratar de objetos que existem apenas como idéias (os “enfermeiros-hospitais”) ou, no caso dos navios, pelo fato deles jamais poderem existir como forma fechada, visto serem combinações de módulos, cujas permutações são feitas mentalmente, requerendo do espectador uma imaginação ativa. Do Pó ao Pó age direto no espaço. Há uma familiaridade visual entre a performance e as “enfermarias ambulantes”, dada a presença do corpo. Contudo, na ação, o performer (que veste um uniforme criado pelo artista e carrega uma mochila com um monitor de vídeo que transmite a ação, além de um aspirador de pó) enfrenta o espaço em movimento e acidentado e sai da galeria rumo ao entorno até chegar a outra galeria na vizinhança (onde também ocorria uma vernissage), recolhendo o pó no interior da mala. O limite entre espaço da arte e espaço “real”, posto que a ação acontece nos dois, multiplica indagações: há a ironia sobre a assepsia do espaço artístico confrontado ao turbilhão da vida urbana, e a mistura de seus vestígios (a poeira), transformados em uma espécie de aura de simulacro e um simulacro de aura. Ao final, tudo é imagem de si. Da montanha à montanha, do pó ao pó.