LAERTE RAMOS

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Conversa com Marcela Amaral, por Marcela Amaral e Laerte Ramos - 2004

Laerte,

Estava aqui pensando no seus trabalhos e me surgiu uma dúvida: quando você começou suas xilogravuras com fábricas e indústrias, além do interesse pela matéria/conjunto/assunto fábrica, havia uma preocupação com o bloco, com a massa negra que o assunto te mostrava em contraste com a massa branca que sobrava no papel, tanto que, durante muito tempo, você buscou suportes que te proporcionassem o branco mais branco e o preto mais preto. Até mesmo nos vídeos, como o Memórias, percebíamos essa preocupação com o contraste de cores e massas. Agora seus trabalhos têm cor, são esculturas, pinturas. Essa preocupação com os contrastes ainda existe? Onde?

 

Marcela,

Muito bem lembrado! Antes disto, me recordo de uma série: "caixa d'água" - 98/99 que sintetizava em forma de retrato,estruturas de reservatórios de água, transformando-as em ícones. Apresentei esta série em conjuntos, criando relações de estruturas de corpo único, em forma de "bloco relacionado". Retratos. Num segundo momento, experimentei relacionar a imagem dos reservatórios e estruturas com o solo. Só, sobre solo, sobre um solo só. Um recorte, uma paisagem. A imagem então, deparou-se com uma massa densa e negra de chão. O papel, branco no caso mostrou o seu contrate com o bloco negro que se gravava. Percebi neste momento que a matriz (madeira esculpida) tem o mesmo valor que o papel. Assim como o negro se impõe ao branco com toda a sua certeza, o branco dizia: vibro! O contraste foi me mostrando maneiras de descobrir o dialogo com o branco e o preto. Daí, a procura dos opostos: o branco mais branco, o preto, mais denso! Procurei então superfícies alternativas para as minhas gravuras....era necessário! Papel, papeis, tecidos como feltro, veludo, camurça entre outros foram me contando historias sobre o tal do contraste que tanto me instigava! O melhor papel para a minha impressão até então,o papel camurça branco, apresentou uma vulnerabilidade muito grande em contato com o vilão tempo. Desenvolvi outras séries de gravuras & monotipias que aproveitavam esta característica do papel. Algumas manchas apareceram, mas acabou sendo uma pesquisa a parte de minha verdadeira produção e busca. Ultimamente tenho realizado as impressões de meus trabalhos em um papel simples. A historia que o preto e o branco foram me contando através dos anos foram muito além de uma "simples" busca de um contraste. O diálogo se desenvolveu, e a importância agora foi outra: a falta de respeito. A invasão entre o branco e o preto é constante, uma verdadeira guerra, que se trava a cada corte na madeira, a cada impressão no papel, a cada vez que penso em um trabalho. As cores.....ah, isto eu acho que foi uma traição. Surgiram amantes, e o reinado do preto e do branco foram subdivididos em sub reinos. Não sei quem começou, mas isto não importa mais, já esta feito. Da gravura, meu trabalho transitou para o vídeo, para o objeto, para a pintura, para a cerâmica, para as ruas.......camisetas. O processo foi natural. Em uma série de monotipias, o próprio raciocínio de realização me levou a um pensamento em "frame". Quadro a quadro, foram então conduzidas a uma idéia seqüencial, resultando finalmente em uma digitalização das mesmas em forma de filme. Ah, mas o contraste ainda existe, só que com novas cores novas formas e meios. Por exemplo, com cerâmica, o vazio, o vazado, a sombra, o brilho, o volume, etc. Gosto de transitar entre os meios, aprendo muito com isto. Exercitar a arte. O exercício é um aprimoramento de uma técnica, a experimentação desta, etc. O trabalho, é um exercício levado a sério.

Laerte,

Você falou de um pensamento em ‘frame’. Acho que esse pensamento em frame existe desde o começo, mesmo nas caixas d’água. Ele é, inclusive, os retratos que você mencionou. Me lembro de um trabalho que era um buraco bem construído nas paredes das salas de aula da FAAP que atravessava e unia todos os ambientes. Não era aquilo uma imposição de um frame? Olhe por aqui e a verdade oculta atrás da parede será revelada! Todos esses frames compõe o conjunto da sua obra, seu filme. Não será sua incansável busca pelos contrastes, preto x branco, massa x vazio, claridade x sombra, na verdade uma busca pelo melhor frame? Ainda, sua transição para o vídeo, objeto, pintura, cerâmica, ruas e camisetas também pode corresponder a essa sua busca inconsciente pelo melhor frame, o mais bem construído. Já pensou nisso?

E já que eu estou aqui, o que você pensa dos trabalhos de ‘projeção em sombra’ da Regina Silveira?

 

Marcela,

Retratos, e a relação deles. Acredito, que meus trabalhos possuem imagens extremamente férteis.  Quando crio um trabalho novo, este por sua vez já nasce com pai e mãe. São desdobramentos de imagens que possuem as suas próprias leis. Por exemplo na mesma série de caixa d’águas, a sustentação de um reservatório é uma constante. Em outros trabalhos, como a série sobre-rodas, o elemento constante é a roda, e os sentidos de direção relacionados, de ir para um lado, e para o outro, refletindo de forma espelhada em relação a matriz, quando impressa no papel. Estes elementos constantes são submetidos as leis, e os que fogem deste padrão, formam outra série, outra lei, resultando em propostas diversificadas de trabalhos, onde o erro, é sempre bem vindo. Gostei muito da busca do frame perfeito....acredito nesta busca, com toda a artesania necessária para desenvolver as técnicas que me encontro, que me encontram. O trabalho “comunicantes”, que foi acima mencionado, era composto por quatro buracos de forma quadrada que atravessavam cinco salas de aula do curso de artes plásticas da FAAP, onde estudei. Desenvolvido em uma aula sobre instalação, este trabalho é um verdadeiro 8mm. Ele acontecia, e continuou a acontecer por anos, um filme. Os vãos entre as paredes foram executados na mesma distância e altura de maneira tal, que não se identificava a sua função, poderia ser apenas uma entrada de ar, por exemplo. Mas notei que este trabalho distorcia o som da sala de arte ao lado. Os voyers apareciam, e deixavam a marca de seus rostos nas bordas dos vãos, espiavam. De manhã cedo, algumas salas ainda ficavam escuras, e quando outras acendiam as luzes, o percurso do olhar entre os vãos, era interrompido, ou constante, eram grandes ambientes, em posição de frame continuado. Continuado também por meus colegas de faculdade, que usaram inúmeras vezes os vãos para desenvolverem outros trabalhos. Em outras salas desenvolvi ainda o mesmo trabalho, com o vão no formato circular, um buraco.  A intercomunicação entre os ambientes que se discutiam arte estavam começando a se conectar. Resolvi então abrir portas, uma pequena passagem de uma sala para outra, no formato de toca-de-rato, mas o trabalho não pode ser finalizado por motivos de autorização e segurança do prédio, da parede, de gesso, etc. Este trabalho, por exemplo, não passou de um trailer. As sombras da Regina Silveira são monumentais e imortais, um verdadeiro rapto de algo que não se toca, a sombra. Acho que quando ela conquistou a sombra, dominou-a de tal maneira, que começou a desconfigurar a personalidade que toda a sombra possui, uma vida diante de luz, que descansa na escuridão.

 

Laerte,

Busca de contrastes, retratos, busca por frames perfeitos, uma ‘constante’ em cada trabalho que pode conter ou prover novos trabalhos. O contraste, o retrato, o frame também são constantes que podem conter ou prover. Finalmente, o filme que se monta em cada série, cada trabalho, ou na totalidade da sua obra se constrói por meio da união de tantas constantes. Até que ponto isso limita ou abre novas portas no seu trabalho?

 

Marcela,

Os trabalhos que foram sendo desenvolvidos no percurso de minha produção artística percorreram inúmeros caminhos. Algumas vezes, deixaram de ser gravura, mas o pensamento nos meios da criação e desenvolvimento continuou próximo a idéia da gravura: um pensamento processual, com cortes, tiragens e séries. Não precisa ser gravura, mas a técnica da gravura é a raiz de toda a minha produção, e por isto, cuido muito bem deste solo, e tento mantê-lo fértil. Mas o que realmente é preciso, é a postura e seriedade diante de todos os exercícios da arte, de todos os trabalhos. A gravura aguçou a minha sensibilidade. O ritual do corte do papel, da construção da matriz, de preparar a tinta, a textura exata, o som dela ao toque do rolo e a pressão da prensa que transporta a tinta da matriz para o papel. As impressões que deram certo e as que deram errado, mostrando caminhos jamais percorridos dentro de um mapa que se altera por ter mais de um norte. Caminhos se fazem, trilhas se percorrem e cruzam umas com as outras, atalhos aparecem nesta longa jornada de várias setas que nos guiam, que nos enganam. Onde o certo e o errado se unem, o acaso.  Esta união é perfeita. Muitas descobertas foram meros erros, insistidos, tornando-se outras leis, determinando trabalhos novos. Mas o trabalho além de percorrer o seu próprio caminho, necessita uma conexão com os outros trabalhos, de outros artistas. O exercício em que me empenho é também um refinamento do olhar direcionado a um lugar e seus detalhes, assim como o de absorver idéias e matérias de outros artistas, de outros trabalhos, culturas, etc. Ir a uma exposição é sempre um exemplo, de como se faz,e  de como não se faz. Acredito que quando uma lei (ou padrão) é proposto em um trabalho, ou série de trabalhos, torna-se um desafio constante de desenvolvimento. Por exemplo, quando recebi o premio FAAP residência em Paris na Cité des Arts/2001, comecei um diário de desenhos. A cada dia eu criava dez desenhos novos. No final da semana, eram 70, do mês, 300, e no final da residência foram 1650 desenhos. Os números não importam, mas a rede de conexões que foram se desmembrando neste diário estavam todas ainda nítidas no meu processo de criação. Não havia repetição, e sim pequenas transformações como uma animação usando aqueles mesmos “frames”. O respeito diante deste meu diário pesava, e me custava horas para retomar todas as transformações das linhas em busca de uma progressão continuada. Este diário é sem dúvida uma das lições mais importantes que eu já levei para casa.  

 

Laerte,

Para mim, parece definitivo que a busca por constantes expande seu campo de trabalho e, mais do que isso, expande sua percepção, não só do seu trabalho mas de toda a produção contemporânea que você acompanha. Inclusive, você é uma pessoa que acompanha a produção contemporânea, tenta visitar todas as exposições e se mantém sempre informado do que aparece por aí. Você deve ter notado que a produção da chamada arte multi-midia tem crescido bastante: fotos, vídeos, instalações, vídeos-instalações, etc. Você, por outro lado, se mantém atrelado numa raiz que é bastante tradicional e distante dessa onda multi-midia. Mas, ainda, você é um artista multi-midia nas suas múltiplas mídias: gravura, pintura, camisetas, esculturas, etc. Como você vê essa relação da sua produção “tradicional” com essa recente multi-midia?

 

Marcela,

Meus trabalhos percorrem os meios de expressão de uma maneira muito natural. Por serem em sua maioria imagens “compactas”, estas se espalham como logotipos em uma vasta área de superfícies a serem impressas e exploradas. Quando se pinta, a pintura finalizada e fixada na parede, apresenta-se pronta, diante de um observador. O tempo da relação trabalho/obra e observador/expectador é determinado pela primeira vista, em seguida com uma observação continuada e uma conclusão, ou pergunta. O tempo desta relação é dado pela própria pessoa que relaciona com o trabalho, que pode ser de relance, um pouco mais prolongada, ou apenas direcionado ao canto direito do trabalho, onde há uma etiqueta que fornece detalhes importantíssimos sobre uma obra, uma arte. A pintura/gravura sempre acontece, está sempre disponível a uma relação pessoal de tempo indeterminado. Já os trabalhos em vídeo/filmes precisam de vários fatores para existir. É preciso ligar na tomada, ter energia. O tempo de relação é predeterminado, e geralmente há um começo, um meio, e um fim com letreiros e agradecimentos. Um dos maiores problemas dos trabalhos apresentados em vídeo é a manutenção exata, respeitando o expectador que as vezes até pagou para entrar na exposição (no caso das Bienais, por exemplo) e muitas vezes não vê o trabalho. O mal funcionamento de uma organização respeitosa com o evento elimina a possível relação dos trabalhos com as pessoas. Inúmeras vezes deixei de ver trabalhos por terríveis falhas técnicas, isto já aconteceu com você? Há pouco tempo atrás, os vídeos ainda eram apresentados em formato VHS, que tinha uma duração de 2h com qualidade.....o que perdia durante a mostra de um mês devido ao desgaste da fita. A tecnologia superou este problema com o surgimento do DVD, e a sua extraordinária opção de “looping” que oferece um ciclo contínuo de trabalho, aproximando um pouco do tempo da pintura, que não tem fim. Este desrespeito do mal funcionamento do vídeo durante a apresentação do trabalho foi gerando uma série de perguntas em mim, resultando em uma série extensa de trabalhos em vídeo. Num primeiro momento comecei a trabalhar com o vídeo usando a sua linguagem primordial, de ajuste: “a paleta multimídia” – barra de cor NTSC. O começo e o fim são unidos pelo respectivo padrão NTSC. E o “meio” dos trabalhos foram se relacionando diretamente com a minha produção bidimensional. Em outros momentos transformei a cor da barra NSTC em NSTC-blue, NSTC-green, etc. Na seqüência o chiado/chuviscado da televisão e suas interferências também começaram a ser utilizados em meus trabalhos, assim como a tela azul de segurança da televisão. A tradição? Não tenho nenhum interesse por esta palavra. Prefiro romper os elos da tradição, até mesmo com a própria gravura. Meus trabalhos não apresentam os veios da madeira porque a madeira que uso é reciclada e prensada com resina. A tradição dos paspatours, dos paspatours dos paspatours das molduras que afogam as gravuras até hoje, distanciam o trabalho e sua composição formal abrindo janelas das janelas das janelas diminuindo cada vez mais os trabalhos. Isto é tradição. Minha pesquisa foi elaborando maneiras para transformar esta tradição que atrasa a gravura, o desenho, a arte. Outras maneiras de fazer gravura, na rua? O lambe-lambe da mais gosto!

 

Laerte,

Acredito que você tem uma visão bastante pessimista da ‘tradição’ e em alguns casos bastante errônea, talvez um certo preconceito. Pra mim, a tradição, se não fosse boa e se não colaborasse com a produção contemporânea, de vanguarda, não se chamaria tradição. Uma coisa se torna tradição quando ela é benéfica, pelo menos nas artes plásticas eu encaro dessa forma. Logo, as multi-mídias serão tradição! Os paspatours não afogam as gravuras, as libertam prendendo-as num isolamento. As suas gravuras talvez não necessitem desse isolamento por serem, como você mesmo disse, imagens compactas que se espalham em diversas superfícies. Mas não é sempre assim. Além do que, não é porque você ‘modernizou’ seu modo de produção de gravuras, e a partir delas expandiu seu campo e seu tempo, que ela deixa de ser uma forma tradicional de arte, e muito boa! Acho que essa visão um tanto quando preconceituosa da tradição pode limitar e atrapalhar o desenvolvimento do seu trabalho que, como te disse antes, é tradicional nas multi-mídias em que se apresenta.

 

Marcela,

A tradição ao meu ver, tem que ser respeitada, e para isto existem museus de arte antiga, moderna e até de arte contemporânea. Grandes colaborações de livros e catálogos de artistas que fizeram e fazem a história da arte. Ela não é benéfica. Pode muito bem atrasar a evolução do homem, ou não! O problema é fazer o tradicional, e continuar a fazer isto. A tradição é certa. O que aconteceu e o que acontece hoje, agora, é certo, certeiro, tão certo, que não poderia acontecer de outra maneira. Por mais que o meu conceito interno de certo entre em conflitos com os outros conceitos de certo e errado de outras pessoas, o que acontece é certeiro, com certeza. Acredito que a tradição são leis continuadas que mantém o certo em uma linha tão certeira que quando se erra, o erro é nulo. Acredito que a anulação do erro na área das artes em geral empobrece as possibilidades de conexão com o mundo. Penso sempre na possibilidade de atingir uma meta em todos os trabalhos que realizo. Durante as tentativas, o erro não é encarado por mim como um vilão, e sim como uma possibilidade outra, de uma outra verdade, de um outro acerto, certo?  No caso específico da gravura, hoje, eu admiro os artistas que estrapolam esta tradição, como gravando matrizes em suportes não convencionais e imprimindo em superfícies diversificadas que não precisam ser de papel. A definição de arte é algo extremamente difícil, Marcela. Peguei um dicionário Michaelis, e ele define arte desta maneira: ar.te s. f. 1. Conjunto de regras para dizer ou fazer com acerto alguma coisa. 2. Conjunto de prescrições de um ofício ou profissão: A. náutica. 3. Saber ou perícia em fazer uma coisa. 4. Expressão de um ideal de beleza, concretizado em qualquer obra de gênero artístico. 5. Conjunto das obras artísticas de uma época, de um país. 6. Dom, habilidade, jeito. 7. Ofício, profissão. 8. Maneira, modo. 9. Traquinada, travessura.

Posso (ousar) argumentar item por item.

1- Fazer com acerto alguma coisa? Usando ainda um conjunto de regras? Meus melhores trabalhos nasceram da união de erros incalculáveis e de acasos jamais imagináveis. Não tive a oportunidade de perguntar isto para grandes artistas ainda vivos, mas anotarei esta questão, e quando tiver a oportunidade, não deixarei de perguntar. 2- O resultado de um profissional da vasta área arte tem como resultado de trabalho: arte. Eu ainda acrescento em negrito: profissional, simplesmente pelo fato de que no nosso país, um artista ainda não é visto como um profissional. 3- Neste tópico, eu vejo a imagem de um artesão que domina um meio de se expressar de maneira tal.........que só pode ser arte. É! 4- Ideal de beleza? Isto eu provo que pode mudar em segundos dentro de nossa cabeça! O belo, o horrível, são totalmente transitórios, mas a arte pode fazer a ponte entre um e outro, tornado algo berrível, ou horrelo. 5- Sem dúvida alguma, sem fronteiras. 6- A artesania entra novamente em questão. Acredito nos segredos de cada artista, nas fórmulas e químicas para conseguir atingir o êxtase. Nas descobertas dentro dos laboratórios-ateliers. Eureka! Horrelo! 7- Como em qualquer outra profissão há amadores e profissionais. Vejo os profissionais da seguinte maneira: não conseguem desligar a sua vida particular de seu trabalho, tudo o que vêem, o que sabem, acaba aparecendo de uma maneira ou outra em sua produção. Os amadores? Com talento, logo logo se transformam em profissionais. 8- Maneira, modo. A poética de cada um é tratada com particularidade neste item importantíssimo. Ser único. Ser a única pessoa capaz de fazer isto, só pode ser SEU! Créditos recheados de reconhecimento e cobertura de credibilidade. 9- Poxa, isto é uma brincadeira!

 

Laerte,

Acredito que uma coisa é respeitar a tradição e outra é viver um mundo regrado pela tradição. Neste caso eu concordo com você que ela é maléfica. Respeitar a tradição não implica viver nela ou dela, implica crescer com ela. Eu acho que você cresce muito com a tradição, talvez você não perceba, mas negando-a ela te coloca para frente, te impulsiona a continuar e a crescer! As próprias definições de arte que você encontrou no dicionário e comentou são a mais pura demonstração de como a tradição, seus limites impostos, suas aberturas, seus acertos e erros podem te fazer pensar e crescer! Sem dúvida, sem vontade de crescer e de querer saber, o que te impulsionaria a procurar essas definições e questioná-las? Olha aí o benefício da tradição! Os erros! Os erros, a meu ver, são sempre bem-vindos porque, como a tradição, nos ajuda a crescer. Vejo muito do seu trabalho crescer nos erros. Por exemplo, aquela série de gravuras de fábricas e indústrias sobre uma superfície manchada, oxidada, “suja”, começou num erro, até onde eu me lembro (me corrija se eu estiver errada). Essa série cresceu e se transformou em algo novo e com um conceito muito bem estruturado, de repente o próprio suporte era uma tradução daquilo que estava sendo gravado. Aliás, você já pensou nisso? Seus suportes podem sempre ser encarados como uma continuação e/ou tradução (não sei se esta é a melhor palavra…) daquilo que está sendo gravado, e de todo seu trabalho.

 

Marcela,

Naquela incrível busca dos contrastes já comentados, eu errei muito para conseguir as linhas perfeitamente lisas, sem borrões. Como eu me preocupo em não desperdiçar o material, seja o papel, a madeira, a tinta, eu tive que repensar algumas coisas. Me doía amassar as gravuras e jogá-las no lixo, não gosto de fazer isto. Então, comecei a gravar outras matrizes em cima dos erros, no mesmo papel, mas em certos casos ainda não foram suficientes. Não demorou muito para eu perceber que entrando com a monotipia e assumindo as manchas o resultado seria tão especial para mim naquele momento. Lembro-me de uma ocasião em que mesmo depois de gravar algumas matrizes e entrar com a monotipia em cima (porque havia dado tudo muito errado), ainda não tinha sido o suficiente. Tentei entrar com uma cor, então saquei o isqueiro da mochila de uma maneira muito prática, e tentei cuidadosamente queimar a superfície do papel tornando-a marrom. Era meio dia, e o sol estava intenso no atelier. Não enxerguei direito a chama, e em segundos o trabalho começou a pegar fogo. Apaguei. Fiquei muito triste, porque o trabalho ficou esburacado, mas o resto estava maravilhoso. Peguei um estilete e cortei o trabalho em dois pedaços. Pensei: um díptico então. Sabe que o trabalho ficou bom, me senti satisfeito. E deu errado tantas vezes! Enviei o trabalho para um concurso, o prêmio philips de arte em 1999 para pô-lo em prova, e foi selecionado e premiado! Que lição, que insistência. Este prêmio é muito importante para os artistas novos, há uma seleção de dois artistas por país da América do Sul. E a exposição acontece aqui no Brasil, e todos os artistas selecionados são convidados para vir conhecer o nosso país e trocar experiências entre eles, entre nós. Acredito neste prêmio. Ando muito pela cidade, esta ação é sempre uma reflexão sobre o espaço que habito, capto detalhes nas ruas, construções e transformo-os em outra coisa, que às vezes resulta em gravura. O ato de percorrer caminhos, traz sempre idéias novas, acho que deve ser porque desta maneira o vento nos encontra mais fácil. Outro momento que favorece as idéias é por meio da fluidez da água que nos lava durante o banho, mas sozinho. Um terceiro, pode ser durante uma palestra ou aula cujo assunto já não nos interessa mais. Com um papel e um lápis, ao som monótonoemurmurado, esta tudo resolvido. Digo lápis porque as idéias e as canetas bic’s se vão, por isto prefiro o lápis.

 

Laerte,

Inclusive, suas andanças pelas ruas, as observações do espaço, da própria rua, das construções já fizeram nascer trabalhos na rua propriamente dita, interferindo e se relacionando com os espaços e construções. Os adesivos na Paulista, os muros do tunel da Rebouças, etc. Não é verdade? Que tipo de relação essas interferências trouxeram aos espectador? Você chegou a observar as reações do público? Gostei do monótonoemurmurado, em cada lugar, dentro de cada particularidade encontramos esse som, murmúrios de gente, de água, de carros, de ruas…Onde essa música está te levando?

 

Marcela,

Moro em Moema, um bairro de São Paulo. Esta região vem sofrendo grandes mudanças. É tudo tão rápido, que podemos enxergar claramente as mudanças, a casa que existia ali, virou um estacionamento provisório, que já esta virando prédio. Virou. A memória do lugar é soterrada ao som de bate-estacas, e de todas aquelas engrenagens que desconstroem para construir depois, agora. Pensando na memória de todas estas casas que me observaram crescer, desenvolvi uma série de trabalhos em forma de pequenos manifestos.

1- Em um primeiro momento desenvolvi uma série de posters que sintetizam em desenhos extremamente simples, ícones das casas e das grandes edificações.Usei o mesmo tipo de design das propagandas das empresas construtoras, os posters foram criados de forma a integrarem as fachadas dos tapumes das construções de uma maneira mascarada. 2- Nos finais de semana, as construtoras espalham propagandas dos novos e modernos edifícios que estão sendo feitos no bairro. As propagandas são impressas e coladas em madeiras que são suportadas por cavaletes presos a postes. A intervenção que realizo neste outro caso, é um seqüestro relâmpago seguido de uma interferência muito rápida sobre os dizeres das propagandas. As placas são devolvidas imediatamente, para oferecerem não mais a possibilidade de moradia, mas a impossibilidade daquela moradia. 3- Outra ação diante dos mesmos tapumes das construtoras aparece em forma de carimbo. O mesmo selo que garante a qualidade de um produto, só que desta vez, é de qualidade ex-casa. Um grande carimbo em forma circular, parecido com um escudo, um objeto de proteção. 4- Como um objeto de ataque, desenvolvi um estilingue que tem a forma negativa de uma casa. Ao invés de pedras, foram desenvolvidas miniaturas de casas em cerâmica. O contra-ataque. 5- Outra idéia é panfletar junto com as construtoras num domingo de manha nos faróis da cidade, com bandeiras, faixas e moças bonitas devidamente uniformizadas.

Outro trabalho de rua, o “terceiro fluxo” – 2001, era um painel de adesivos colados na fachada do Banco Central, na Av. Paulista. Em uma linha dupla e horizontal, organizei 70 módulos de máquinas em adesivos recortados da série sobre rodas. Este grande painel se relaciona com os outros dois fluxos de máquinas e seus sentidos da avenida. Perto da Avenida Paulista, mais precisamente na R. Major Natanael, desenvolvi um trabalho muito importante para a seqüência de minha pesquisa. Usando uma vassoura e uma escovinha, eu “desenhei-limpando” a parede suja e empoeirada do túnel. Cada traço denunciava a cor mais clara e mais limpa da parede, era um contraste novo em meu trabalho. Estes desenhos se relacionavam diretamente com o meu trabalho de gravura, em relação à luz, e ao contraste, e também com os meus trabalhos de vídeo, pela localização que somente possibilitava ver os desenhos de uma maneira rápida e passageira, da mesma maneira que os vídeos realizados até então. Este trabalho foi apresentado durante a exposição “Gênios Locqui”, e passou em rede de televisão como uma manifestação que denunciava a poluição impregnada nas paredes deste túnel. Uma semana depois, a prefeitura interditou o túnel para levar o desenho ao máximo, lavando. Experimento ao máximo as possibilidades que o meu trabalho me traz, seja por imagens, por sons, sabores, somo todas elas, afinal, o meu sobrenome é somar, espelhado, como uma gravura, ramos.